Quase um século depois, modernismo ainda incomoda os reacionários

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Estamos a dois anos do centenário da Semana de Arte Moderna, evento cultural mais marcante do século 20 no Brasil, uma verdadeira revolução, que representou a ruptura com os padrões tradicionais da criação artística no país. Em suma, e simplificando um pouco (mas não muito), o modernismo rompeu com as linhas conservadoras que predominavam nas artes plásticas, na literatura, na música, no teatro. Promoveu uma travessia, muitas vezes ruidosa e sempre provocativa para uma nova e revolucionária estética (na imagem, o realismo modernista da obra “Operários”, de Tarsila do Amaral, de 1933).

Tudo o que vivemos e amamos até aqui (do século 20 ao 21), em termos de cultura, tem fundamento modernista. De Villa-Lobos a Chico Buarque e Caetano Veloso, de Pagu a Fernanda Montenegro e Sônia Braga, de Mário e Oswald Andrade a Ferreira Gullar e Paulo Leminski. De Tarsila do Amaral a Vik Muniz.

A cultura modernista resistiu ao ranço de inspiração fascista do Estado Novo (1938-1945) e da ditadura civil-militar (1964-1985).

E quando perguntam por que Santa Catarina é um Estado tão reacionário, é preciso recuar na história para entender um pouco, pela vertente da cultura, um aspecto fundamental e talvez autoexplicativo. A Semana de Arte Moderna ocorreu entre 11 e 18 de fevereiro de 1922, em São Paulo. Mas o modernismo só chegou a Santa Catarina em 1947, por meio do Círculo de Arte Moderna, fundado pelo Grupo Sul. Salim Miguel, Eglê Malheiros, Ody Fraga, três integrantes do grupo, concederam depoimentos e entrevistas, escreveram artigos e ensaios explicando as razões para o modernismo tardio no Estado. Quase um quarto de século depois de São Paulo, a cultura catarinense moderna ganhou impulso, superando a resistência conservadora, que persistia nos principais centros urbanos, Florianópolis em primeiro lugar, por ser a capital do Estado. O ranço acadêmico foi desafiado pela criatividade dos jovens integrantes do Sul, que incentivaram manifestações provocativas dos escritores, artistas plásticos, músicos e dramaturgos. Os conservadores rejeitavam as novidades modernistas e malhavam os jovens nos meios de comunicação da época, em especial os jornais O Estado e A Gazeta. Apesar da oposição acadêmica e reacionária, a cultura moderna superou as barreiras, mesmo que, aqui e ali, ainda seja ameaçada por ações e reações oficiais ou informais. O combate policial aos grupos de resistência da periferia (o hip hop, o funk e o rap) é um exemplo de como o conservadorismo ainda tem a força que retardou ou inibiu a chegada do modernismo a Santa Catarina. O novo sempre assusta (ou ameaça) o antigo. E quando o antigo chega ao poder, caso presente no Brasil de 2020, o novo é combatido porque enfrenta o reacionarismo e suas ideias sufocantes e destrutivas. O discurso nazista do então secretário de Cultura do governo federal, Roberto Alvim, foi a expressão do inconformismo conservador com as transformações que o modernismo proporcionou à cultura brasileira ao longo deste quase um século.

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