Patrimônio em risco: a Maternidade Carmela Dutra

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– Sou florianopolitano da gema, diz o primeiro amigo.

– Da Carlos Corrêa ou da Carmela? – questiona o outro.

Esse diálogo é muito comum em rodas de amigos, em Florianópolis. A resposta, qualquer que seja, é sempre um “atestado” de autenticidade mané.

A primeira maternidade é mais antiga: foi fundada em 1927. A segunda é mais recente, mas nem por isso tem menor importância: foi fundada em 1955.

As duas têm força cultural imaterial e material, formam parte da identidade local, como referências de pertencimento e identificação, além de representarem recortes importantes do patrimônio arquitetônico e histórico da Capital.

A Carlos Corrêa é particular e nunca esteve sob ameaça. A Carmela Dutra foi a primeira maternidade pública de Santa Catarina, construída pelo governo do Estado, muito antes da implantação do SUS (Sistema Único de Saúde), mas adotando desde sempre o conceito de universalidade e excelência de atendimento.

OLYMPUS DIGITAL CAMERANa primeira segunda-feira de 2020 (6 de janeiro) o governo do Estado anunciou um pacote de reestruturação física do sistema de saúde da Ilha de Santa Catarina, com o lançamento de um projeto para construção de um novo hospital e uma nova maternidade na área em que já existem o Hospital Infantil Joana de Gusmão e o Hospital Nereu Ramos, na Agronômica. A mudança, se concretizada, vai ser viabilizada por meio de uma parceria público-privada. Na prática, a empresa escolhida (ou consórcio) ficará com as áreas do atual Hospital Celso Ramos e da atual Maternidade Carmela Dutra, edificações situadas num dos pontos mais cobiçados pela construção civil em Florianópolis, com alto potencial para edificações de alto padrão.

Embora não seja tombado pelo patrimônio histórico, o prédio da Carmela é uma referência importante da memória e da identidade de Florianópolis. Sua eventual destruição representará o desaparecimento de um símbolo da cidade.

Escrevi duas matérias especiais sobre a maternidade, a primeira nos 50 anos de fundação, para o jornal A Notícia, em 2005. A segunda nos 60 anos de fundação, para o Notícias do Dia, em 2015. Abaixo, resgato o texto original de 2015:

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Planta da maternidade, do acervo da Secretaria de Estado da Saúde

A Maternidade Carmela Dutra, primeira instituição pública do gênero em Santa Catarina, foi inaugurada em 3 de julho de 1955. Comemora 65 anos de atividades este ano, sendo referência fundamental da saúde da mulher no Estado.

As internações obstétricas começaram em 1956 com 79 leitos. À época, a administração foi delegada às irmãs da Divina Providência. Na atualidade, é uma das 13 unidades administradas pelo Governo do Estado.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAA unidade está inserida no contexto não só de maternidade, mas de um hospital preocupado com a saúde das mamães e dos bebês, sendo referência em boas práticas obstétricas e outros segmentos como gestação de alto risco, oncologia pélvica e mamária, reconstrução de mama e cirurgias ginecológicas.

Na instituição estão disponíveis 104 leitos para atendimento obstétrico, ginecológico, oncológico e neonatal com importantes serviços básicos e especializados. Cerca de 3.600 bebês nascem por ano no estabelecimento de saúde. A neonatologia é um serviço de referência no atendimento aos recém-nascidos. Mensalmente, ainda realiza cerca de mil atendimentos ambulatoriais, mil exames e em torno de 180 cirurgias.

Centro de Referência Estadual em Saúde da Mulher, a maternidade recebeu o título de Hospital Amigo da Criança, possui certificação de Hospital de Ensino e, em 28 de maio de 2013, recebeu da Câmara de Deputados o Prêmio Dr. Pinotti – Hospital Amigo da Mulher. Em 2014, o banco de leite da unidade obteve o certificado de excelência na categoria ouro da Fiocruz, ao qual concorre novamente este ano.

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Forte presença religiosa na inauguração, em 3/7/1955: o arcebispo Dom Joaquim presidiu a cerimônia

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Placa de inauguração na entrada: uma realização do governo de Irineu Bornhausen

“Faça-se a luz – assim Dom Joaquim Domingues de Oliveira iniciou um de seus memoráveis discursos querendo dizer que as mentes se abriram, o bem prevaleceu e um tempo novo chegara! O mesmo Dom Joaquim que presidiu a entronização da imagem do Coração de Jesus na capela da Maternidade Carmela Dutra, naquele distante 3 de julho de 1955.

No cortejo estavam o Dr. Paulo de Tarso da Luz Fontes, então secretario da saúde; o Dr. Biase Agnesino Faraco, primeiro diretor da MCD; o Dr. José De Patta, patrono do Centro de Estudos da Casa; o Sr. João Adalgísio Felipe, primeiro responsável pelos serviços gerais e da administração; os padres jesuítas Beno José Schorr S.J., por longo tempo capelão da Maternidade e Alvino Bertoldo Braun S.J., ambos professores de muitos de nós e que estreitaram os laços entre a Carmela e o Colégio Catarinense, sempre mantidos pelo compromisso ético e a correção na assistência a pacientes e alunos.

A procissão saiu do Palácio do Arcebispado na Rua Esteves Jr., ao entardecer, seguiu pela Rua Presidente Coutinho e alcançou a via de acesso que leva à Maternidade, hoje Rua Irmã Benwarda, acompanhada por damas e cavalheiros da sociedade, irmandades religiosas e das irmãs da Divina Providência vestindo seus hábitos tradicionais”.

[Registro histórico do médico Nelson Grisard, que foi diretor da Maternidade Carmela Dutra]

QUEM FOI CARMELA

Carmela Teles Leite Dutra nasceu no Rio de Janeiro, em 17 de setembro de 1884, e morreu em 9 de outubro de 1947. Conhecida como Dona Santinha, foi primeira-dama do Brasil durante o governo de seu marido, o general Eurico Gaspar Dutra. Muito religiosa e ligada às atividades beneficentes, apoiou o projeto inicial da maternidade em 1946. Por isso seu nome acabou batizando o estabelecimento de saúde que, à época da inauguração, tinha muitos vínculos com a Igreja Católica.

PRIMEIRO NASCIMENTO

O nome nem poderia ser diferente: o primeiro bebê que nasceu na Maternidade Carmela Dutra ganhou o nome de Carmela Helena Rosa. Ela veio ao mundo em 16 de fevereiro de 1956.

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Anotações de nascimentos preservadas pelo obstetra Nazareno Amin. Hoje tudo isso é feito de forma digital, na própria maternidade

5 comentários sobre “Patrimônio em risco: a Maternidade Carmela Dutra

  1. Achei a Carmela Helena Rosa no face. será que ela sabe que o nascimento dela foi um registro histórico?

    1. Trabalhei na mcd por 33 anos hoje ja aposentada fiquei m triste com essa noticia.espero que esse patrimonio historico não seja apagado .

  2. O “progresso” é assim. Enterra a história sem deixar vestígios! Também “desaparecerão”, em detrimento da especulação imobiliária, as construções históricas, das escolas Lauro Muller e Presidente Roosevelt!

  3. Muito triste para a história de nossa cidade destruírem a nossa Tradicional Maternidade Carmela Dutra, que se façam outras instituições de saúde para melhorar o Sistema de Atendimento à Saúde mas mantenham as estruturas patrimoniais que fazem parte de nosso sistema de saúde há muitos anos com excelente atendimento para toda a população catarinense

  4. escrever textos no conforto do ar condicionado não traduzem a realidade da atual estrutura da Carmela Dutra que o autor parece desconhecer.
    Estrutura de madeira tomada por cupins, Espaços projetados para uma Florianópolis que não mais existe trazendo prejuízos para Servidores e Pacientes, e anos de descaso com a Saúde Pública fazem da Carmela da nova década uma estrutura a ser substituída com máxima urgência.
    A Memória deve sim ser preservada, claro. E só…

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