O Amaury Ribeiro que conheci

Não converso com o Amaury Ribeiro Júnior já faz um tempinho. O jornalista que é pivô da nebulosa história sobre a quebra de sigilo fiscal da tucanada foi meu importante parceiro no Jornal de Santa Catarina, entre os anos 1988 e 1989. Ele chegou à redação da Avenida Rio Branco, à procura de emprego, junto com um amigo (Eurico). Os dois tinham trabalhado no Estadão e queriam mudar para Florianópolis.

Amauri foi contratação imediata. Talentoso, rápido, divertido, tornava o dia a dia na redação muito mais agradável e inquietante.

Num certo dia, fui chamado pelo Werner Zotz, que era diretor do Santa. Queriam que eu fosse para Blumenau, assumir a função de editor-chefe, dentro do projeto que os novos controladores do jornal pretendiam implantar.

Aceitei o desafio e impus uma condição: queria levar o Amauri comigo, por uma questão de confiança pessoal e profissional. Para isso, ele teria que morar por uns tempos num hotel e receber uma ajuda de custo da empresa. A direção topou e lá fomos, eu e o Amaury, participar do novo processo editorial. [Lembrando que o Santa e A Notícia eram, à época, os únicos jornais diários que tinham edições de domingo, de verdade. O que tornava o trabalho ainda mais penoso, porque tínhamos que trabalhar no sábado o dia inteiro].

* * *

O projeto do Santa não deu certo. Faltou capital e gestão. Quando Amaury descobriu que daquele mato não saía coelho, pegou sua bagagem e foi embora, de volta para São Paulo. Continuamos amigos, nos ligávamos com frequência, às vezes nos comunicávamos pelo telex (o MSN da época).

Acabamos perdendo contato.

Muito tempo depois, peguei a Folha e li uma chamada de capa, com assinatura do repórter. Matéria do Amaury era sobre uma brasileira que estava no corredor da morte, numa penitenciária norte-americana. Mas a procedência da reportagem me intrigou – “Belo Horizonte”. Ora, de que forma Amaury havia entrevistado a brasileira? Isso a matéria não contava.

Liguei pra sucursal da Folha em BH e pedi pelo repórter. Cumprimentei-o pela matéria e lancei a dúvida: “Como é que conseguiste entrevistá-la, se nem a Globo, com toda sua estrutura, havia conseguido até agora?”. E ele me explicou: estava sem pauta, sentado na sua escrivaninha, lendo os jornais do dia, quando bateu os olhos numa nota sobre a história da brasileira, publicada em algum desses veículos. “Anotei o nome da cidade, liguei para informações internacionais e telefonei para a penitenciária nos EUA. Pedi para falar com a presa, expliquei qualquer coisa e eles chamaram a mulher. E ela me deu a entrevista”. Simples assim.

* * *

Vejo Amaury agora envolvido em toda essa coisa sórdida da campanha presidencial e lembro-me do repórter assustado, nervoso e engraçado que trabalhou comigo durante quase dois anos. Tinha uma obsessão diária: furar a concorrência. E um talento indiscutível para mergulhar nos bastidores das repartições públicas, à procura de irregularidades em contratos, convênios e outros papéis da burocracia.

* * *

Pois é, ainda que acusado por inúmeras operações condenáveis, a mando não se sabe de quem – ele diz que foi dos próprios tucanos, numa operação “fogo amigo” – Amaury confirma, pelo menos pra mim, o espírito do repórter que sempre foi: investigativo.

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One response to this post.

  1. Posted by ednei ribeiro on 21/10/2010 at 16:13

    Carlos Damião
    Me aborrece ler seu post sobre esse Amaury Ribeiro. A nós, gente honesta e trabalhadora, não importa ser “indiscutível” a capacidade dele de ser “invesigativo”.
    Importa, isso sim, é ele fazer parte de um “grupo de inteligencia” de pre-campanha, grupo este usado para cometer crimes.
    Desculpe, mas ao invés de condená-lo, o senhor ainda elogia suas “qualidades”.
    A propósito, copio comentario que fez outro jornalista, Reinaldo Azevedo, de Veja, comprometido com a verdade, dizendo o que pensa do episódio. Por favor, se não leu, leia:

    A PF jogou informações no ventilador para tentar confundir a opinião pública em vez de explicar o que aconteceu. Por quê? Porque o objetivo era tirar o PT do foco, como Lula anunciou que aconteceria, ainda que com outras palavras, e transformar esta esdrúxula figura — o ex-jornalista Amaury, atual funcionário do moralista Edir Macedo — num problema “tucano”.

    De todas as tramóias do governo Lula para NÃO investigar um malfeito, esta foi, sem dúvida, a mais indecente, a mais indecorosa. Nas outras, sempre se notou a tentativa de tirar o corpo fora, de garantir a impunidade, com acusações genéricas: “Todo mundo faz; todo mundo é assim”. Desta feita, a coisa é diferente: decidiu-se culpar a vítima mesmo. Sem medo de ser feliz — e sem vergonha, como é do feitio da turma.

    Por Reinaldo Azevedo

    Resposta

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