Eleitor, o ‘cliente’ da democracia

Certos candidatos, depois de eleitos, só querem o sangue da cidadania

As campeãs de reclamações no Procon são, em geral, empresas prestadoras de serviços telefônicos. Oi-Brasil Telecom é a mais denunciada, seguida por Claro e Tim. O Procon aplica multas milionárias, as empresas fazem acordos, pagam pelas infrações e, enfim, continuam anunciando na grande mídia, gastando bilhões por ano para vender os… péssimos serviços que o consumidor compra-e-reclama-e-compra-e-reclama-e-compra-e-reclama.

No mundo do marketing da telefonia tudo é maravilhoso, há bônus impressionantes, aparelhos celular de graça (desde que o consumidor assine um contrato de fidelidade), gente bonita, mundo perfeito, imagens hiperrealistas (ou surrealistas); ou seja, não faltam estímulos sensoriais para que o tanso do consumidor vá à loja e adquira tais serviços. (Ah, sim, a loja só serve para vender; se quiser reclamar, tem que ficar pendurado, dias a fio, no telefone).

No caso da política é quase igual. Nos preparativos de campanha, os candidatos a cargos majoritários escolhem, de acordo com seus recursos, os marketeiros que lhes prestarão serviços. São os marketeiros que formatam os produtos. Sim, os candidatos são encarados como produtos a serem vendidos aos eleitores, pouco importa a classe social, exatamente como fazem as operadoras de telefonia com seus serviços e aparelhos.

Isso acontece com todos os partidos – do PP ao PMDB, do PT ao PCdoB, do PSDB ao PR. Quem pretende disputar o voto do eleitor precisa, de alguma forma, recorrer a alguém que entenda de formatação do produto, mesmo que esse produto não tenha conteúdo, sustança, tutano.

É assim que funciona numa eleição majoritária. O candidato é apresentado ao eleitor como se fosse um produto ou serviço de companhia telefônica, com estas ou aquelas vantagens sobre os adversários. E cada adversário – como as empresas concorrentes da telefonia – procura representar na propaganda o melhor papel possível. Vende mais (ou vence) aquele que desempenha com mais competência (ou fingimento) esse papel virtual.

O caso da disputa pela prefeitura de Florianópolis, tanto em 2004 quanto em 2008, é escandaloso. Não pelo marketeiro, que apenas cumpriu sua tarefa, pela qual é remunerado com justiça. Mas pelo que o produto fez (ou faz) depois que os resultados são consagrados. Aí o marketeiro já não tem culpa, responsabilidade, porque certamente ele construiu uma imagem do candidato que deveria, em tese, ser cumprida na prática, no cotidiano da administração pública.

No caso das telefônicas, o consumidor recorre ao Procon, que aplica multas, as empresas pagam, reincidem e continuam enganando seus clientes. No caso da política, só resta ao eleitor (o consumidor) recorrer aos vereadores decentes, ao vereadores que não dizem sim, que não vergam a coluna, que fazem a diferença, mesmo que estes sejam poucos. O Procon do eleitor é o Ministério Público e a Justiça. E se o vereador toma as dores, busca amparo legal para defender os interesses da cidadania, este parlamentar, pouco importa o partido ou a família da qual faz parte, tem que ser aplaudido e respeitado. Se não tiver razão em reclamar, tudo bem, foi a Justiça que decidiu. Mas ele, o que defende a cidadania contra a mediocridade, a incompetência, o despreparo, o mandonismo, fez o que tinha que ser feito.

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6 responses to this post.

  1. Posted by Zé da Silva on 12/12/2009 at 13:27

    talvez o problema esteja nas campanhas propositivas, onde só se fala de propostas, muito fáceis de fazer, enquanto o caracter de cada canditado não é analizado em nome da tal campanha limpa, propositiva. Sei lá, mas acho que é por aí..

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  2. Posted by Lucian Chaussard on 12/12/2009 at 15:41

    Não se pode esquecer de que a lógica do marketing acaba continuando durante os mandatos.

    Seja pela obra x que é mais visível que obra y (mesmo que essa seja mais importante do que aquela), pelo embelezamento superficial da cidade, pelos enormes gastos com propaganda televisiva, pela liberação de verbas perto do período eleitoral, etc.

    A meu ver, o perigo maior é esse. A política cada vez mais se resume à construção de uma imagem midiática que serve majoritariamente para o encaminhamento das campanhas eleitorais, e por conseqüência, para a propagação do poder pelo poder.

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  3. Posted by Gabio on 13/12/2009 at 8:43

    Damião, faltou vc citar o partido democrático DEM(o) … sabemos todos q não foi por maldade não incluir esta instituição no rol dos partidos corruptos.

    Aliás, segue direto do Luiz Nassif:
    13/12/2009 – 09:06

    Comprometida a cúpula do DEM
    Por Thiago

    Nassif,

    Leia o elo não tão perdido entre o Arruda e o DEM.

    O sítio Congresso em Foco denuncia as relações promíscuas entre o Arruda e alguns caciques do DEM, essa relação é movida por bons vinhos e viagens caras.

    Detalhe: o Deputado ACM Neto não desmentiu a revista, disse que suas despesas foram pagas por ele próprio (ACM).

    “O governador disse que pretende dedicar-se agora a cumprir o que lhe resta de mandato. Mas talvez não haja chantagem suficiente para segurá-lo no posto. Ele enfrentará um processo de impeachment na Câmara de Brasília – e os imprevisíveis desdobramentos das in-vestigações, que poderão esbarrar na conexão nacional que Arruda tanto alardeia nos bastidores. O elo nem tão perdido entre o DEM e Arruda atende pelo nome de Paulo Roxo, lobista apontado como “achacador” de fornecedores do governo do DF. No Carnaval deste ano, Roxo levou os deputados Rodrigo Maia e ACM Neto para passear na Itália. Tomaram bons vinhos e visitaram a pista da Ferrari, em Maranello. Antes de o escândalo vir a público, Roxo, Arruda e Maia planejavam divertir-se com a família na Disney, em janeiro”.

    Leiam também: http://congressoemfoco.ig.com.br/noticia.asp?cod_canal=1&cod_publicacao=31116

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    • Posted by carlosdamiao on 13/12/2009 at 12:01

      De fato, meu caro Gabio, não foi por maldade… O PFL (DEM-o) está na raiz de todos os nossos problemas. É a velha UDN que se faz presente ao DEM-o, com rótulo novo, aparentando juventude… Mas eu não sacrifico na minha análise um único partido. Todos estão contaminados, infelizmente. E essa contaminação é parte de um processo de demonização da estrutura política, porque no Brasil a luta política passou a ser guiada pelo marketing (a questão midiática impera), não por ideologia ou maturidade democrática. Ou seja, nossos males não se resumem à corrupção, que é o lado perverso da negociata que virou a política. O maior problema, a meu ver, é capacidade, é preparação para o exercício do poder. Hoje, qualquer um que tenha dinheiro para pagar o melhor marketeiro se elege qualquer coisa. E escreva aí: Dário Berger vai se eleger governador. E eu vou-me embora pra Pasárgada.

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  4. Posted by Yuri on 13/12/2009 at 19:05

    Caro Damião, não sei se é o post adequado, mas vai um link sobre a “Dezembrada” Italiana:

    http://noticias.terra.com.br/mundo/noticias/0,,OI4155202-EI8142,00-Berlusconi+e+atingido+por+golpe+no+rosto.html

    Além das semelhanças dos fatos, o Berlusconi até que lembra o general Figueiredo…

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  5. Posted by Gabio on 13/12/2009 at 19:21

    Damião, estou contigo e não abro!

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