O lado sinistro de Florianópolis

Gosto muito do Centro. Passei parte da adolescência morando na Rua Felipe Schmidt. Depois, trabalhei uns quantos anos nas Ruas Jerônimo Coelho, Anita Garibaldi, Tenente Silveira, Adolfo Mello, Osmar Cunha, Crispim Mira e Rio Branco. Depois de adulto, morei na Vidal Ramos, na Gama d’Eça e na Hercílio Luz. Estudei no Instituto Estadual de Educação… Posso dizer que passei quase dois terços da minha vida em função do centro da cidade, não apenas por morar, estudar ou trabalhar, mas também para diversão e atividades culturais (sou um privilegiado: fiz teatro no teatro de arena que ficava dentro do Miramar, nos últimos suspiros daquele monumento destruído pela engenharia da brutalidade).

Queiram ou não queiram os novos-ricos instalados no poder, o Centro é a alma da cidade. Ainda mais o nosso, que é histórico, de ricas histórias e personagens. Só o calçadão, a Praça 15 de Novembro, o Mercado Público e a Alfândega, o Palácio Cruz e Sousa e o Palácio Dias Velho (antiga Câmara Municipal), dizem por si o quanto nos vale esse patrimônio que o professor Paulo Fernando Lago chamava de “patrimônio da saudade”.

Tudo isso deveria ser conservado, bem-cuidado e apresentado aos moradores e turistas. Nada disso é conservado, cuidado ou apresentado aos visitantes. Simplesmente porque o Centro virou um pardieiro, que o movimento dos dias de semana esconde, mas a iluminação noturna e a luz do sol nos sábados e domingo revelam por inteiro.

Ontem, caminhando entre minha casa e o Ticen, pude ver o quanto o Centro se transformou num lugar sinistro. Evitei a praça, porque havia pelo menos uns 15 malacos fumando sei-lá-o-quê, bebendo cachaça e se espreguiçando nos bancos. Evitei a Alfândega, porque, da mesma forma, havia uma escória espalhada pelo espaço, tropeçando nas pedras ou acomodada nos bancos e no que era para ser um palco de shows. Nem quis passar pelo calçadão, deserto àquela hora (pouco mais de 10 horas da manhã de domingo), para não correr riscos.

Eu, cidadão de Florianópolis, nascido na Maternidade Carlos Corrêa, que vivi minha vida quase inteira ligado ao centro da cidade, não posso mais caminhar com liberdade pelas ruas da minha querida Desterro. E não tenho a quem apelar, porque não há guarda cidadã (que deveria ser essa Guarda Municipal incompetente e ausente), não há policiais militares nos espaços públicos, não há sequer uma autoridade que tenha coragem – ou que cumpra a obrigação – de colocar ordem nessa zona. Florianópolis é, decididamente, uma cidade sem governo.

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5 responses to this post.

  1. Posted by Anthony Toini on 07/12/2009 at 23:19

    Eu concordo!
    Enquanto lia o texto, imaginei que já passassem das 10 da noite de qualquer dia… Mas não! Fui surpreendido ao ler o “10 da manhã de domingo”.

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  2. Damião. dá vontade de chorar. O teu texto é um belíssimo ‘ensaio sobre a cegueira’. Não, não é. É um sinistro quadro sobre a má-fé dos que nos conduzem. É impossível que não vejam. É impossível que não sintam a cidade morrendo. Será que é impossível largarem por um instante as fartas tetas da viúva e olharem a Ilha, pra mim já Morta. Cansei de fazer a analogia com uma prostituta que não distingue a clientela, mas nossa Ilha foi mãe e madrasta generosa a TODOS que aqui nasceram ou que pra cá vieram ou fugiram. Ofereceu seus peitos e deu seu leite. Porém, seus cafetões exigem mais e mais , exigem e exigem até o último fio de sangue, até matá-la.

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  3. Posted by Florianopolis sumiu on 08/12/2009 at 9:34

    Sei que vou contra o pensamento geral, mas me parece que a interdição de veiculos no centro, o grande numero de calçadoes , matou o centro. Sumiram os bares , cafés, confeitarias,bons restaurantes, cinema etc. Ninguem circula por lá fora do horário comercial e virou aquilo que vc fala: um lugar tetrico. O remédio matou o doente

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    • Estão tirando o sofá da sala. Você tem toda razão. Eram 5 cinemas e várias sessões nas artérias da Pr. XV. Imagina com a população de hoje, serviços, cafés, bares… mas a cafetinagem só que saber de arreganhar as burras da Vila.

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  4. Damião, teu comentário é perfeito. Apenas acrescento o seguinte: a Guarda Municipal não só é incompetente e ausente, mas como também, quando presente, violenta. Eu mesmo fui vítima de um ato tresloucado de um sujeito, vestido de guarda municipal (escondeu o crachá e só pude notar que o seu nome termina com AN), que quase invadiu o meu carro, nas imediações da Rodoviária Rita Maria, dizendo que eu deveria avançar o veículo para desobstruir a passagem que ele próprio tinha obstruido, sem que os carros que estavam a minha frente se movessem. Encaminhei reclamação ao Comando da Guarda, mas meu expediente não foi considerado e eles continuam desfilando grosserias e violências contra as pessoas de bem.

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