Crônica – Olsen Jr.

Olá, salve! 

Faz 35 anos que escrevo sobre a ditadura militar… Fui estigmatizado por ela e essa “questão com a vida” (todo o escritor, um bom escritor, deve ter uma) permaneceu como referência e uma “mágoa” também, se preferirem…

A sensação, a julgar pelos homens que estão no poder, que o “nosso” sacrifício foi em vão…

Mas escrevo para dizer que  “nem tudo sempre foi assim”, aliás, esse é o título de um livro de contos (fui quem sugeriu)  tendo a ditadura como tema, organizado pelo amigo Francisco José Pereira e editada pela Garapuvu…

Escrevo, para que não se esqueça e porque algumas feridas de vez em quando abrem e continuam doendo…

A “Novembrada” como ficou conhecido o dia 30 de novembro de 1979, tendo a visita do então presidente da república, João Batista Figueiredo, a Florianópolis,  de fundo – paradoxalmente, foi o presidente que levou a tal “Abertura” até o fim e a boas consequencias –  foi um movimento de protesto e não reivindicatório… Uma espécie de radiografia do momento, com todas as mazelas da época, inflação galopante, aumento de gêneros alimentícios e combustíveis sem controle, arrocho salarial (parece uma música de uma nota só, aquilo se repetia, repetia, repetia)… E se resolveu dar um basta…

Nem mesmo o tal banquete que estava preparado, 6.000 talhere, 3.000 quilos de carne, 6.000 mil litros de chope…

Conseguia dissimular ou camuflar (para usar uma linguagem de caserna) o fato de que o povo, generalização de desejos insatisfeitos e sonhos irrealizados, estava no limite, como se viu…

Foi um protesto, onde taxistas aderiram e também os motoqueiros de plantão… As imagens correram o Brasil e o mundo…  

Heim? Quem diria, partindo de uma unidade da Federação, tida como tranquila e pacata, quem diria, repito…

Foi um dia só, parodiando o Drummond, “mas como doeu”…

O presidente queria os “culpados presos”… E daí foram atrás dos “bandidos” que haviam organizado e instigado a realidade que se viu, que foi mostrada…

Well, faz 30 agora, dia 30 de novembro…

Podemos dizer que Santa Catarina, contrariando o que disse Bob Dylan, in “Versos para uma certa canção”, “Nunca foi o meu dever refazer o mundo, nem é minha intenção soar o toque de batalha”…

Aquilo foi, de fato, o toque de batalha… A batalha que precipitou o fim da ditadura, é esse o recado…

A música é mais uma daquelas que o bom e velho Chico Buarque teve “proibida” pela censura…

De tanto ter músicas “proibidas”, o Chico adotou o pseudônimo de “Julinho da Adelaide”…

Mas essa, aí embaixo é “duca”… Toda as vezes que a expressão “você” foi citada na canção, refere-se à ditadura e ao governo estratocrático… 

Dado o recado…

 

NOVEMBRADA: SUBLEVAÇÃO POPULAR PÕE A DITADURA EM XEQUE 

Olsen Jr. 

   Começou em 1968, na França. Os operários em greve tiveram a adesão dos estudantes universitários. Cada movimento com reivindicações próprias, mas unidos.

   Depois se alastrou pelo mundo. A motivação poderia ser diferente, mas havia sempre um gancho. Nos EUA foi o Vietnã, no Brasil, a morte do estudante Edson Luís no Restaurante “Calabouço” que causou comoção nacional e desembocou na Passeata dos Cem Mil, a maior manifestação civil contra a ditadura vista até então.

   Na Inglaterra, Alemanha, Japão, Itália, Tchecoslováquia, Polônia, os levantes estudantis que se espalharam pelo planeta fizeram de 1968 um ano que entrou para a história como símbolo de insatisfação e também de utopia.

   Tanto nos países comunistas quanto nos capitalistas, o grande fantasma que assombrava o status quo era a “fusão das lutas” de estudantes e trabalhadores, como ressaltou Remi Kauffer do Instituto de Estudos Políticos de Paris.

   No Brasil a saturação foi dando-se aos poucos, nos dez anos que antecederam a visita do então presidente João Batista Figueiredo a Florianópolis no episódio conhecido como “Novembrada”.  Teve a morte do operário Manoel Fiel Filho, sob tortura, somadas com a do jornalista Vladimir Herzog, igualmente, e que punham sob suspeita os métodos de manutenção da ordem pública alegados pelo governo.

   Houve a exoneração do ministro do exército,  Sylvio Frota que foi desautorizado com o ato a antecipar o procedimento sucessório ao presidente da república, na época o General Ernesto Geisel. O fato acabou tornando público a chamada “linha dura” dentro das Forças Armadas. Um grupo que era refratário ao processo de “Abertura política”  que contava com amplo apoio da sociedade civil organizada e principalmente dos estudantes. Aliás, estes preferiam que tudo acontecesse com maior rapidez.

   Com a edição do AI-5 e conseqüente, fechamento do Congresso Nacional, o regime atingiu o paroxismo em termos de cerceamento da liberdade.

   Foi o presidente Figueiredo (que sucedeu Geisel) o encarregado de levar adiante a propalada “Abertura” que deveria ser lenta, gradual e irrestrita.

   O mesmo mandatário que afirmou: “O povo é massa de manobra”; que disse preferir o cheiro de cavalo ao cheiro de gente, mas também havia dito que quem fosse contra a “Abertura” “…Eu prendo e arrebento”.

   No dia 30 de novembro de 1979 celebrando os 90 anos da República foi marcada a visita do presidente Figueiredo à Florianópolis. Embora o AI-5 tivesse sido revogado, e o País caminhasse lentamente para uma democracia, o processo ainda levaria tempo e havia uma insatisfação permanente não só com o cerceamento de algumas liberdades, mas algumas questões de ordem econômica que não se resolviam.

   Os universitários, através do DCE – Diretório Central dos Estudantes, resolveram fazer um protesto em frente do Palácio Cruz e Sousa. O que deveria ser uma festa acabou em tumulto quando se pretendeu homenagear o patrono da cidade, o “Marechal de Ferro”, Floriano Peixoto, persona non grata para os catarinenses por ter mandado fuzilar centenas de pessoas (que eram contrárias à República) na Ilha de Anhatomirim.

   O confronto dos manifestantes como presidente do Brasil ganhou repercussão internacional e certamente favoreceu o processo de reabertura democrática no País.

   Para satisfazer ao pedido do presidente, de que os “culpados” deveriam ser presos, alguns estudantes sofreram um processo de enquadramento na Lei de Segurança Nacional, mas foram posteriormente absolvidos. Minha homenagem aos amigos Adolfo Dias (in memoriam), Amilton Alexandre e Rosangela de Souza.

   Os estudantes sempre tiveram um papel importante no destino do Brasil, está lá na obra “O Poder Jovem”, do amigo Arthur José Poerner, aqui o meu respeito também àqueles que não se intimidaram diante da barbárie, o que tornou até esse texto possível!

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