Nós que amávamos tanto a revolução

Publico com atraso a crônica do Olsen, porque abri minha caixa postal na sexta-feira e não a vi lá, onde deveria estar, como todas as sextas. Resgato-a, portanto, até porque o tema é muito atual.

 

NÓS QUE AMÁVAMOS TANTO A REVOLUÇÃO 

Olsen Jr.

    Esse foi o título de um livro publicado em 1985, coordenado pelo ex-carbonário, Daniel Cohen-Bendit em colaboração com o Fernando Gabeira. Bendit foi um dos líderes de maio de 1968 na França e que culminou com a deposição do General Charles De Gaulle; Gabeira foi jornalista , escritor e guerrilheiro… Em comum, o fato de ambos ter assumido a política como parlamentares e o engajamento na construção do Partido Verde.

   Ficou célebre a frase de Cohen-Bendit no auge do movimento que se institucionalizou pelo mundo afora, disse: “É preciso levar a imaginação ao poder”.

   Isso tudo me vem à lembrança a propósito de recentes imagens de presos sendo torturados em Santa Catarina e mostradas para o Brasil.

   O meu assunto era outro, iria falar de cidadania, comportamento, civilização e respeito… Mas aquelas imagens tornadas públicas e divulgadas em muitos blogs não me saem da cabeça. Seria mais um omisso (como a maioria dos nossos parlamentares) se não dissesse nada.

   Em tempo que não vai longe, havia nesse País apenas dois partidos políticos (os outros tinham sido postos na clandestinidade ou extintos)… Um era a favor do golpe militar ou da contra revolução (é o termo técnico para a quartelada) e o outro lhe fazia oposição: Arena e MDB, respectivamente.

   No ideário da oposição estava claro, se ainda me lembro: o reatamento diplomático com os países comunistas, o restabelecimento do direito de “ir” e “vir”, o fim da censura prévia nos veículos de comunicação, o direito a livre manifestação de opinião, a legalidade da UNE – União Nacional dos Estudantes, o voto livre, direto e secreto para se eleger os nossos representantes, em todos os níveis, da presidência da república ao vereador municipal, mas principalmente, e isso era universal, o fim da tortura física e moral para se conseguir confissões políticas ou não…

   Não sou um saudosista e isso tudo parece pré-história em nosso sistema de organização sócio-política, mas não é demais lembrar, alguma coisa ainda precisa ser aprimorada e não podemos nos desgarrar dos direitos humanos.

   Trabalhei dois anos (final da década de 1980) na assessoria de comunicação da Secretaria de Estado de Justiça e Cidadania, visitei várias vezes todos os 23 presídios e as três penitenciárias do Estado (estas últimas são modelos para o Brasil) e lembro certa vez de um preso (paulista) que tinha sido recapturado aqui em SC e ele pediu para cumprir o resto de sua pena aqui, a razão era o tratamento que se dava aos apenados. Havia no imaginário do dito preso que aqui a polícia era menos truculenta e até se tivesse sorte poderia ingressar em um dos programas alternativos de (re) socialização, cito o caso da construção de cadeiras de rodas a partir de sucatas de bicicletas, uma inovação trazida por um pastor dos Estados Unidos e que deu certo durante algum tempo em Joinville e Rio do Sul. Técnica que foi levada para outras instituições penitenciárias e que acompanhei de perto, em Manaus, por exemplo, com sucesso.

   Isso posto, para mostrar que houve tempos piores, mas também houve tempos melhores e é até constrangedor, para se dizer pouco, que tenhamos regredido a esse ponto de sequer nos rivalizarmos com os animais, porque estes não se dedicam a infernizar a vida dos seus iguais, não assim com este requinte premeditado de humilhação, como foi mostrado para o mundo pela televisão.

   Logo agora, quando quase toda a cartilha do que se pretendia no poder está toda decorada e cumprida e justamente num governo que tinha como essência a determinação de acabar com a insolência e de uma luta que começou lá atrás, em 04 de março de 1966, o dia da fundação do MDB, o partido que ficou conhecido como “o bom e velho de guerra”… Só que a guerra, como se observa ainda é a mesma, como disse o antigo revolucionário: “é preciso levar a imaginação ao poder”.

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