Os que só dizem ‘sim’

Ainda estou inconformado com a história de São José (post anterior). Depois do almoço, sentei sob a sombra de uma árvore e comecei a pensar: que diabos de democracia é esta nossa, em que prevalece a teoria e a prática da espinha curvada? Não foi por esta democracia que lutamos tanto nos anos 1970-80. Lutamos pela representatividade real, pela participação efetiva do povo no poder, pelo respeito às instituições, pela justiça social e pela superação do atraso — econômico, político e social.

Essa distorção presente hoje a todas as instâncias – da Presidência da República às mesas diretoras das câmaras municipais – não é democracia. É conchavo, é fisiologismo barato, é uma forma covarde de administrar, de fazer política, de jogar com interesses mesquinhos, particulares, escusos e egoístas.

Talvez por isso, quem diz não nunca é bem vindo a esses grupos que se encastelam no poder. Basta dizer não para ser amaldiçoado, escorraçado, esculhambado. Cai em desgraça, porque o que vale nesta democracia de araque é o que diz o Folhetim (Chico Buarque):

Se acaso me quiseres / Sou dessas mulheres / Que só dizem sim / Por uma coisa à toa / Uma noitada boa / Um cinema, um botequim / E, se tiveres renda / Aceito uma prenda / Qualquer coisa assim / Como uma pedra falsa / Um sonho de valsa/ Ou um corte de cetim / E eu te farei as vontades / Direi meias verdades / Sempre à meia luz / E te farei, vaidoso, supor / Que és o maior e que me possuis / Mas na manhã seguinte / Não conta até vinte / Te afasta de mim / Pois já não vales nada / És página virada / Descartada do meu folhetim

Que letra própria para os que só dizem sim! E como isso é real na política catarinense, nesse varejão que virou a administração pública, tanto no Estado quanto em alguns municípios.

E digo mais: ainda bem que existem aqueles que dizem não. E não estou falando dos blogs, mas também de alguns políticos – minoria, é verdade – que resistem a esse vergonhoso canto de sereia lançado pelos pseudolíderes que surgiram nos últimos anos.

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2 responses to this post.

  1. Posted by Joanildo on 05/11/2009 at 16:31

    O Damião, é por essas e outras que eu gostava mais dos tempos da ditadura. Pois naquela época sabámos quem era nosso inimigo. Era jogo aberto.

    Responder

  2. Posted by Elisandro Lotin de Souza on 05/11/2009 at 17:19

    Caro Jornalista Carlos Damião, parabéns pelo brilhante texto, curto e extremamente explicativo da conjuntura política atual, notadamente em SC. O Deputado Sargento Soares que o diga.

    Responder

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