A crônica do Olsen

Meu caro Olsen enviou a crônica semanal mais cedo, com um bilhete que explica o motivo: o texto foi censurado em A Notícia, o jornal joinvilense que vem sendo desconstruído pela RBS desde 2007. A desconstrução inclui, evidentemente, a censura ao que não interessa àquela publicação, cuja história, pré-RBS, muito nos orgulhou.

Eis o bileite do Olsen e logo abaixo a crônica em questão. Ah, sim, tem também o tradicional fundo musical. Carole King, supimpa. 

Olá, camaradas, salve!

O texto que vocês irão ler agora acaba de ser censurado pelo jornal A Notícia…

Há 12 anos escrevendo para este jornal ainda me surpreendo, não sei porque ainda insisto…

Talvez porque um poeta é semelhante a uma vela, se extingue iluminando…

É o que me anima, mas dói…

A respeito do editor, você não vê o sujeito defendendo uma única ideia, aliás, você não percebe o cara ter uma única ideia para defender…

Mas dói…

A música é essa, Carole King é “duca” como diria o Paulo Francis… “It’s too late”… É tarde demais… Mas nem tanto para alguém indignado, como estou agora…

Até! 

CARTA À ANITA PIRES 

Olsen Jr. 

   Há muito estou para lhe escrever. Demorei-me, todavia, porque acreditava, depois de certo tempo, tomando pé da situação, a senhora iria levar a bom termo a empreitada, isto é, dirigir a Fundação Catarinense de Cultura.

   Estive em sua posse. Muito concorrida, acrescente-se. Afinal, era uma mulher, foi guerrilheira. Bonita, inteligente, culta. Tinha uma história para contar. Já havíamos (eu e a minha família) lhe emprestado apoio quando de sua candidatura à prefeitura de Florianópolis, em outros tempos. Nunca lhe pedi nada, não lhe devo nada, a não ser essa admiração por alguém que formou, como eu, fileiras no velho MDB de guerra, no tempo em que isso era sinônimo de esquerdismo, comunismo, anarquismo e não sei mais quanto “ismos” se poderia acrescentar a quem lutou por uma causa que se julgava justa. Portanto o que lhe digo é com a melhor das intenções.

   O que me motiva agora foi uma excrescência que li no jornal. O governo do estado, através da FCC, elege uma “comissão” para escolher os escritores que irão a Feira do Livro de Porto Alegre. Estranho, penso. Se o “Governo” vai facilitar uma locomoção até a feira, bancando o veículo, natural seria se protagonizasse uma inscrição e que todos os interessados pudessem fazê-la, afinal, o governo, administra o Estado e não um feudo, de ungidos e diferenciados por apadrinhamento.

   Depois, analisando os acontecimentos ligados a minha área, isto é, a literatura, deparei-me com apoteóticas coincidências, senão vejamos: se a senhora, dona Anita Pires por quem ainda tenho grande admiração, observar – basta por as listas dos nomes a sua frente – os membros que compuseram a comissão que selecionou os classificados no Edital Elizabeth Anderle, mais os nomes que integraram aqueles que escolheram os livros que deveriam ser adquiridos na “Lei Grando”(na Cocale – Comissão Catarinense do Livro) para abastecer as bibliotecas do Estado e ainda, esses agora que escolheram os nomes dos escritores  para irem a Feira do Livro, nas três listas a senhora irá deparar com nomes que se repetem em todas elas.

   Well, esses nomes ficaram conhecidos, grosso modo, como os “Mastins do Péricles”… Mastim, como a senhora sabe, são cães de guarda, existem desde a Idade Média, são subservientes e fieis a quem lhes garanta a sobrevivência e extremamente ferozes com quem ameace essa condição e´”Péricles”, naturalmente nada tem a ver com o político e estadista grego (490-429 a.C) discípulo de Anaxágoras e maior orador do seu tempo ou o criador do “Amigo da Onça”, genial personagem de Péricles de Andrada Maranhão que desde a década de 1940 inspirava o bom humor brasileiro, sempre pondo alguém em uma fria.

   Isso posto, acrescente-se a má fé, como diria Sartre, em se “ungindo os agraciados com a ida a Feira do Livro com a indicação da cidade de origem, do nascimento, dos “eleitos” para dar uma ideia de “universalidade” e “abrangência” como se tivesse abarcado o Estado inteiro, assim, o sujeito nasceu em Blumenau (mas mora em Florianópolis), nasceu em Lages (mas está em Floripa), nasceu em Tubarão (mas reside em Floripa) e vai por aí… Puta que os pariu… (alô revisão, é puta que os pariu mesmo)…

   O Estado ajuda muito quando não atrapalha.

   Estive em Criciúma na semana passada, na Feira de Rua do Livro, pô! Existe uma aversão por esse compadrio que alicia indivíduos, apaniguados pelo Estado, para causas que deveriam ser de ordem coletiva e se tornam aparato de um grupelho, com a exceção de um e outro, inexpressivo de nossa literatura, por mais que insistam.

   Por isso tudo, senhora Anita Pires, reveja essa condição, não se deixe dominar por maus aconselhamentos ou então nos explique por que quando se está dentro do poder se tem uma tendência de repetir mal o que se combatia bem quando se estava fora?

   Aceite o abraço de quem lhe quer bem e lhe deseja sucesso!

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3 responses to this post.

  1. Posted by Laudelino Marcos Silva on 16/10/2009 at 3:37

    Cancelei minha assinatura do jornal pelego.

    Responder

  2. Tá na cara que a censura foi pelo “puta que os pariu”…

    Responder

  3. Posted by Luiz Fernando on 17/10/2009 at 12:37

    Damião,

    Esta já esta vendida faz anos!!!
    Admira-me o Olsen ainda ter tanto respeito a ela!

    Responder

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