A crônica do Olsen

 

HEI, CHARLIE 

Olsen Jr. 

   Foi quando saímos para almoçar que eu percebi. Estávamos sentados de frente um para o outro. O cenho franzido, um olhar fixo em um objeto que parecia só existir em sua mente e um gesto vagaroso das mãos quando foi apanhar o copo não se importando com o imediatismo na concretude do ato. A sensação de que carregava o opróbrio do mundo…

   Observo aquele homem.

    Foi na década de 1970 quando o Benito Di Paula apresentava o Charlie Brown (personagem criado na década de 1950 por Charles Shultz) para a Cidade Maravilhosa, que ele passou a existir ainda no útero de sua mãe.

   Era uma criança ainda quando, dadas as nossas dificuldades, teve de ficar uma temporada com os avós. Mais tarde começou a entender a vida e me acompanhava nas feiras do livro de rua. Gostava de vestir uma camisa xadrez, parecida com uma que eu tinha, e dizia que era uma camisa de escritor e era o que pretendia ser quando crescesse.

   Depois, mudamos de cidade. Ele foi aprender inglês e aos poucos se descobriu músico.

  Cultivar uma arte num mundo pragmático onde o imediatismo do êxito tiraniza o artista, requer obsessão. Mas todos que acreditaram ser dotados de um talento para desenvolver uma ocupação artística, com trabalho e dedicação, sempre acabam chegando a algum lugar. Sem talento não vai… Sem obsessão também não… A partir daí, estudo, trabalho e dedicação… Um homem não pode chegar a uma altura de sua vida e concluir “não fiz tudo o que podia para conseguir o que pretendia”… Pois então, vá à luta e não se preocupe contra quais demônios irás lutar… Os mais terríveis são os interiores, aqueles que não nos dão sossego, mas esses, quando os domamos, são aqueles que nos irão gratificar. Aliás, nenhuma obra que se preze pode dar-se ao luxo de dispensá-los… Se você acredita que eles estão aí se fazendo notar, o melhor que se pode fazer é enfrentá-los, mas só se consegue isso quando somos obcecados por um sonho.

   Combinamos que iríamos por as cartas na mesa naquela noite. Juntos com a mãe dele, e buscaríamos – como sempre fizemos – uma saída para o impasse, qualquer que fosse ele. Abraçamo-nos ali no meio do corredor, uma fração de segundos que pareceu uma eternidade, uma comunhão de corpos que celebravam a extensão da família e era no que se podia acreditar ainda e era no que eu acreditava.

   Tínhamos dado para eles as mesmas moedas de troca que recebemos de nossos pais: caráter, honestidade, decência, respeito, o que se julgava necessário para viver integralmente, num mundo livre (uma liberdade que ajudamos a conquistar com passeatas, abaixo-assinados, greves, e sob porrada, prisões arbitrárias e o estigma que carrega todo o revolucionário: ser inconformado com toda a espécie de poder que se estabeleça para dirigir pessoas) e com discernimento para fazer sempre a escolha, do clube de futebol a uma ocupação profissional. O homem deve perseguir o próprio sonho.

   Tudo bem que no dia-a-dia as tais “moedas de troca” se revelem insuficientes ou até fora de moda, mas era um começo, e com “elas” sempre se podia contar, na pior das hipóteses, como referência de um hipotético “fracasso” não premeditado.  

   Vejo-o se afastar e depois sinto qualquer coisa embargando a minha voz e também decido sair dali antes que aquela maldita dúvida exploda no vazio do corredor em frente: essas moedas de troca que deixamos de herança para eles, para as nossas crianças, se não tomarmos uma atitude, em breve, não comprarão mais nada e ainda serão motivos de escárnio para os seus usuários…

   Mas se não fizermos nada, enquanto um único homem na terra for atrás do próprio sonho, ainda restará uma esperança de redenção e com essa poderemos começar tudo de novo, meu filho!

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