A grana que falta para a cultura que interessa

 

Não tenho nada contra o cantor Andréa Bocelli. Apenas não está entre meus favoritos na música lírica, embora ele seja considerado um bom intérprete do gênero.

O que não me parece sensato é que tenhamos que trazer alguém como ele, pago a preço de ouro (R$ 3 milhões não é pouco dinheiro), para um show de fim de ano, enquanto vemos nossos músicos populares e eruditos sempre mendigando recursos para se manter em atividade. Se a intenção do governo e da prefeitura de Florianópolis é boa – oferecer música de qualidade aos moradores e turistas nas festas de fim de ano – por que não investiram na Associação Coral de Florianópolis, na Camerata, no Estúdio Vozes, na Orquestra Juvenil de São Pedro de Alcântara, na incomparável Orquestra de Câmara de Blumenau e tantas outras iniciativas bacanas e que têm a marca da nossa gente?

Cultura é tão indispensável quanto comida no prato. Mas não dessa forma espetaculosa, grandiloquente, como se Florianópolis fosse New York ou Paris – e nós sabemos, conscientemente, que estamos muito longe disso. Imaginem a quantidade de assaltos, roubos, sequestros e arrombamentos de veículos durante o show de Bocelli!. Se hoje, sem Bocelli, nós estamos à beira do caos em termos de paz social, calculem o que pode acontecer com uma cidade lotada de turistas (previsão oficial de um milhão de pessoas) para assistir gratuitamente ao show do tenor italiano.

A impressão que tenho, ao ler o press-release do governo, é de que nossas autoridades perderam mesmo o senso de realidade. Para não dizer que piraram de vez, usando dinheiro público para satisfazer egos e megalomanias específicas. Ah, esse nouveau-richisme! Ah, essa afetação barata (no sentido de pobreza de espírito) pelo poder!

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4 responses to this post.

  1. Uma coisa que não podemos dizer é que esse governo é burro, ou que não tem uma política clara.

    Se pegarmos a área da cultura, a despeito da crônica falta de apoio aos grupos locais, vemos uma política muito bem definida. A começar pela sua sustentação teórica: o conceito de lazer como aproximação do turismo e da cultura e complementar ao de trabalho.

    A partir disso, nossos governantes optaram por investir em eventos grandes e caros. O aparelhamento de algumas cidades com os centros multiuso é um indicador disso. A lógica de optar por esse tipo de política é que esses eventos criam consigo, automaticamente, uma propaganda para o governo. O retorno de imagem é tão nítido quanto o de um elevado.

    É claro que eu considero essas escolhas um equívoco completo. Mas isso é uma questão de valores e não de inteligência da equipe de Luiz Henrique. E não há solução para resolver isso, pois de alguma forma esse governo e seus aliados são um reflexo do povo.

    O estado de Santa Catarina, junto com alguns como Piauí, é um dos mais carentes em incentivo à cultura. Mesmo assim temos programação cultural, especialmente em Florianópolis. Basta ver os espaços culturais que surgiram nos últimos anos, os cineclubes, os grupos de teatro e a manutenção e crescimento de alguns festivais.

    Só que venho notando uma coisa: não há público fora o habitual, que geralmente é a própria classe artística. E o problema não está necessariamente na falta de investimento, mas na falta de sentido do que é cultura para o povo e para a cidade. Isso é claramente um reflexo da falta de educação de qualidade. Ou seja, estamos numa situação muito complicada, que talvez transcenda o modo de governar de Luiz Henrique.

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  2. Posted by Rafael Costa da Silva on 02/10/2009 at 0:19

    Segundo manchetes na impressa o evento é de graça pro povo… eia… jogo de palavras.

    Ótimo comentário de Lucian.

    Eu também acho que não é uma atitude mal pensada do governo. Pode ser até mesmo uma visão além do que alguns criticam. Na realidade o governo está atendendo ao que as pessoas em geral estão buscando. E lógico: é uma visão pragmática, de resultados imediatos dentro de um mundo eleitoral…

    Eu concordo com a observação de que o grande interessado, o público, não está interessado em cultura, apenas quer diversão, rápida, de preferência com griffe. Daí nem precisa pensar, a griffe indica que é “bunito”, não precisa ter referência local, história ou fazer parte de alguma coisa.

    Entram aí também o kart, os mágicos do outro mundo, o congresso mundial de turismo, futebol das estrelas e outros por aí.

    O governo está entregando o que é valorizado pelo eleitor, o mundo das celebridades, quer alguns não gostem e não tenha maiores consequencias, mas como agente que interpreta os anseios das pessoas ele não está muito errado.

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  3. Posted by Paulo Egídio on 02/10/2009 at 7:18

    Oi, Damião,

    Olha, o Bocelli não é um cantor de Ópera qualificado, um “bom intérprete”. Sua qualificação é pelo carisma pessoal, não pela técnica, que é sofrível. Ele tem uma voz de cantor de bar. É chamado para trabalhos exclusivamente pelo carisma, esteja certo. A Orquestra Sinfônica do PR foi convocada meio às pressas para acompanhá-lo na recente passagem por RJ e SP e eu, felizmente, escapei desta – já estava comprometido com outras atividades e a Coordenação me liberou. Ele é uma boa pessoa, mas eu não fazia questão de tocar com ele nas condições de trabalho que foram propostas.

    Embora eu tenha sérias ressalvas à competência de alguns músicos locais que você citou, não tenho a menor dúvida que investir mais sério num trabalho focado em gente daí seria muito melhor para a cultura do que trazer um pop star pseudo-erudito. Mas sempre pode ser pior: Poderiam levar André Rieu (o “melhor violinista do mundo”, pffffffff – arrumo 10 aqui em Curitiba melhores que ele).

    Um abraço.

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  4. Posted by Homero on 02/10/2009 at 13:40

    No fundo é o resultado da idéia de incentivar o turismo de alto $$$ nível, aquele de grande $$$ retorno, tanto econômico quanto político, uma vez que dá mais visibilidade nos gabinetes de Brasília e dos partidões do que se fosse uma Pró-Música da vida.
    E prá finalizar, não reclamem ;>, poderia ser ainda mais pior (ô português hem?!?!?), poderiam contratar uma Tati quebra barraco da vida para tocar um pancadão, e gastar o mesmo tutu na organização….

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