A crônica do Olsen

 

VANDALISMO EM REPRESÁLIA 

Olsen Jr. 

   Demorei 33 anos para dirigir um carro porque prometi que só o faria quando tivesse o meu próprio. Coisa estranha considerando que os meus amigos quase todos já faziam isso desde os 13 anos.

   Meu carro é um Fox vermelho (a cor do meu clube) com placa MEQ-0606 (Meq em homenagem ao maior enxadrista brasileiro (do meu tempo de ginásio) Henrique da Costa Mequinho e seguido da minha data de nascimento), ah! Quase esqueço, chamo-o carinhosamente de Hägar (homenagem ao cartunista dinamarquês, Dick Browne, criador do personagem “Hägar, o horrível”, a tira de quadrinhos mais lida no mundo).

   Eu e o Hägar temos uma relação de grande respeito um pelo outro. Somos parceiros de viagem. Nossa ancestralidade escandinava permite o silêncio sem constrangimentos. Também falamos pouco e respeitamos a solidão de cada um.

   Agora, vamos aos fatos. Véspera do jogo entre Avaí e Internacional, os nativos começaram o aquecimento às 9 horas da manhã. Percebi isso quando fui tomar café. No almoço já havia indivíduos falando sozinho. Decido, junto com o Hägar, ver o jogo em casa, às 18h30. O Hägar fica no seu canto, sozinho na garagem, lugar limpo e aprazível. O ritual é o mesmo, fecho a casa toda para ninguém saber que estamos lá dentro, a voz roufenha do Chet Baker na copa, televisão ligada sem o áudio, e fico na biblioteca esperando a hora, depois é no rádio mesmo.

   Após o jogo e o que se viu. Internacional venceu com dois jogadores a menos e o Avaí também deveria ter dois expulsos, mas os critérios mudaram durante a partida. Há muito a arbitragem brasileira se tornou um caso de polícia.

   Fico alegre com a vitória, digo alegre, mas não feliz o que é outra coisa.

   Durante a madrugada, alguém insatisfeito com o acontecido, invade a garagem e aproveitando que o Hägar estava dormindo, munido de um objeto perfuro-cortante (olha a medicina legal da faculdade de direito) sangra-lhe o ventre de lado a lado e se evade. Pela manhã não consigo dar a partida como faço sempre. É estranho, parece que ele está tentando me dizer alguma coisa. No primeiro posto de gasolina, pouco distante de casa, percebo a ferida no seu corpo, coisa feia, deve ter doído muito. Logo, o Hägar e eu mesmo, somos consolados por transeuntes que também não entendem aquele ato de selvageria diante de uma criatura inofensiva. Com a promessa de uma internação breve, porque se precisa de recursos, o Hägar se conforma e sugere que toquemos a vida como sempre fizemos, sem lamúrias, mas cada vez mais convictos dessa “paixão inútil”, na voz de Sartre, em que se tornou o ser humano.

   Duas coisas me ocorrem: uma, o sujeito pensou “danifico o patrimônio dele ou então chego em casa mato o meu cachorro ou arrebento com a minha mulher; ou talvez, o sujeito inconscientemente deve ser um “meia bomba” como disse Paulo Francis a respeito do assassino de John Kennedy, Lee Oswald, fracassado, frustrado e com uma “puta inveja” de tudo o que funcione ao redor, nesse caso não há muito o que fazer…

   É irônico, fico em casa para não me incomodar e sou agredido na forma mais covarde de represália que é o vandalismo, a depredação do que não se fez nada para construir… No “dos outros” é refresco, como se diz…

   Somos impermeáveis à grandeza, alô! Paulo Francis novamente “…Por isso rejeitamos Maurício de Nassau, Calabar e Duguay-Trouin. E deu nisso”.

   A famosa tamanqueira portuguesa.

   Digo para o Hägar que nem todo o ser humano é assim e que irei tomar as providências que o caso requer embora o cara não tenha deixado nenhuma pista, a menos que se considere um forte cheiro de enxofre no ar, mas isso pode ser confundido com o odor dos mil demônios que exorcizo, diariamente, quando escrevo.

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7 responses to this post.

  1. Posted by João on 11/09/2009 at 8:33

    Incrível a habilidade do Olsen em escrever.

    Responder

  2. Posted by carlosdamiao on 11/09/2009 at 8:56

    Não é só habilidade, João. É talento de anos de leituras e práticas. Nisso que você leu aí tem influências de Dostoiévski, Hemingway, Joyce, Poe, aquela grandeza da literatura universal. Ah, sim, e tem também componentes da música, de Chet Baker, Oscar Peterson, Louis Armstrong, Chico Buarque, Beatles… É isso. Beijo pra ti.

    Responder

  3. Posted by Adriano Flor on 11/09/2009 at 9:00

    QUE MERDA , E EU AINDA PERDI TEMPO PRA LER.

    Responder

  4. Posted by Wolff on 11/09/2009 at 11:13

    Big Olsen ! Vivemos tempos anético, amoral, invadidos
    por sabujos nojentos !!!

    Responder

  5. Posted by Roberto Stähelin on 11/09/2009 at 14:40

    É, Damião, a gente tem que estar preparado pra tudo. Entre 3 opiniões, duas diametralmente opostas!

    Responder

  6. Posted by Roney Prazeres on 12/09/2009 at 10:42

    Damião, de fato o ato praticado é um absurdo, mas não podemos aceitar que a culpa seja atribuída à colonização portuguesa (leia-se nas entrelinhas: a nós manezinhos que aqui nascemos). Tão absurdo como o ato agressivo realizado é a agressão de condenar uma cultura ou um povo, sem sequer procurar saber quem realmente foi o autor da ação.
    Não poderia ter sido um torcedor gremista?
    Deplorável a crônica publicada.
    Penso que o autor pode produzir textos muito melhores. O publicado no teu blog é, com certeza, recheado de preconceito e desprezo pelos nativos da ilha.
    Lamentável é verificar que o preconceito cresce a cada dia. Por que não aprendem a respeitar a cultura do local onde optaram em viver?
    O caso do ataque ao automóvel deve ser investigado por quem de dever, ou seja, a polícia, fora isto é puro preconceito.
    Florianópolis já vive o drama da violência do submundo das drogas e cada dia fica mais triste viver aqui, por esta razão não podemos admitir que o preconceito, também uma forma de violência, ganhe força e passe a ditar os relacionamentos em nossa cidade.
    Saudações Desterrenses

    Responder

  7. Posted by Wilson on 12/09/2009 at 17:41

    Prezados Olsen e Hagar (o vermelho)
    Fato lametável. Não se justifica uma coisa pela outra, nunca. Só porque tivemos a cidade invadida nos últimos tempo por, diga-se de passagem, gaúchos insatisfeitos com sua terra natal; só porque temos de nos deparar com a tentativa diária de sufocar nossos costumes, crenças e valores; só porque temos só em São José (segundo nosso grande arquiteto Gama D’Eça) mais CTGs do que em todo Rio Grande do Sul, não temos nós os nativos, descendentes de portugueses, o direito de reagir de forma tão visceral a um simples resultado de futebol, que embora positivo às suas hostes, foi ornado por demonstraçoes de soberba e arrogância em pleno estádio e seus arredores. Isso seria pensar e agir pequeno. Mas, se vale a informação, a torcida do Gremio, quando aqui esteve, foi mais pacifica e muito menos inconveniente do que a atual “campeâ do mundo”. Represália ? Não sei. Mas faço coro ao internauta Roney Prazeres: e se o autor do vandalismo foi um gremista, conterrâneo seu ??
    Se for, dô te um conselho “junta as tuas tralha e te arranca que vem chuva !!!”

    Wilson

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