Sou um sonhador

 

Como já vai fazer 20 anos (portanto, estamos próximos da prescrição), posso finalmente revelar em quem votei para presidente da República em 1989. Foi meu primeiro voto, depois de ter participado da luta pelas Diretas Já em 1983 e 1984 (fui ao comício da Sé, em São Paulo, com Ulysses, Brizola e tantos outros no palco) e ter torcido pela vitória de Tancredo Neves-José Sarney no colégio eleitoral de 1985.

Meu primeiro voto foi para Roberto Freire, do PCB, no primeiro turno. No segundo turno, cravei Lula, claro, porque Fernando Collor não me enganava e eu já entendia de marketing o suficiente para rejeitá-lo.

O que aquele 1989 me traz de saudade, não só da luta política, da primeira eleição direta para presidente desde 1961, é seguramente a figura do meu pai. Ele votou no primeiro turno, sem qualquer tipo de constrangimento, no candidato do marketing, o próprio Collor. Mas não viveu para votar no segundo turno – morreu dias antes, no dia do aniversário dele.

Lembro de meu pai em 1964, com medo do que viria: o golpe parecia violento aos nossos ouvidos; nós que acompanhávamos o noticiário pelo rádio, em Balneário Camboriú. Ele tinha ligações discretas com o PTB, que era o partido do presidente Jango, por conta da amizade com Evilásio Caon, notável trabalhista catarinense.

Em 1965, depois que as coisas se acalmaram, o pai distanciou-se de qualquer relacionamento político. Em 1967, com a criação de Arena e MDB, notei (eu tinha 11 anos) que ele se inclinava mais pelo “manda-brasa”, como era chamado o MDB. Mas nunca militou, era só uma simpatia distante. Quando voltamos a Florianópolis, ele comentava, discretamente, que seu voto era sempre para quem fosse “da cidade” (uma coisa bem manezinha, que é o voto no Partido de Florianópolis, pouco importa o partido). Por isso, tenho certeza que votou em Edison Andrino para prefeito em 1985 e em Pedro Ivo para governador em 1986. E teria votado em Amin em 2002, 2006 e 2008.

Em 1989 ele estava muito doente, tínhamos que levá-lo frequentemente ao hospital para receber soro e oxigênio. Mas ele era um ser político. Mesmo com a saúde muito frágil, foi votar no primeiro turno. Votou no Collor; eu o perdoei e compreendi.

Saudade dele, do Roberto Freire de 1989, do Lula de 1989, do Mário Covas de 1989, de tantos que acreditaram na democracia, achando que a democracia nos livraria do mau-caratismo na política. Mas a política, como vemos, é algo que está se tornando podre, muito podre. E as poucas diferenças, entre os homens e mulheres de valor que militam na vida pública, ainda são malhadas por certos comentaristas, que colocam todos na vala comum. Alguns deles (comentaristas) por certo são muito jovens e não sabem o que se passou entre 1964 e 1985. “Esses moços, pobres moços, ah, se soubessem o que eu sei” – os versos de Lupicínio Rodrigues, um dos grandes poetas do Brasil em todos os tempos.

E me desculpem porque estou muito emotivo neste domingo, ouvindo Oscar Petterson e seu The Will To Swing; neste momento When Lights Are Low; e com vontade de abraçar todos aqueles que ainda acreditam na política como uma forma de luta. Ainda que utópica, a luta por um mundo menos canalha e mais fraterno. (Meu pai diria, pareço ouvi-lo, que sou um sonhador. Sou).

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: