Para evitar mais uma ‘geração perdida’

 

Tenho entrevistado prefeitos de várias cidades catarinenses, sobre os mais variados assuntos. E quase sempre tenho me surpreendido com ações positivas, que evidenciam o interesse desses dirigentes públicos em solucionar graves questões de seus municípios. O que mais me chama atenção é relacionado à educação e à cultura. Especialmente quando as prefeituras desenvolvem programas de inclusão social através de atividades culturais (e também esportivas).

Caso 1 – São Pedro de Alcântara – O prefeito Ernei Stähelin está no seu segundo mandato. O município tem mais ou menos a população do miolo central de Florianópolis – 4 mil moradores. Desde que assumiu em 2005 Ernei tem uma obsessão: evitar o êxodo dos jovens que moram em sua cidade, em geral atraídos pelo glamour da Capital, com suas praias, shoppings, consumismo desenfreado. Ele sabe que é difícil convencer a garotada que é melhor ficar no campo, plantando milho ou alface, do que ambicionar uma vida mais divertida, com os confortos capitalistas e o acesso à tecnologia e às grifes de roupas e acessórios.

Ernei, que cresceu em São Pedro e tem lá ainda sua família morando, foi vereador (em São José) e pequeno empresário. Chegou à prefeitura com a idéia de valorizar o município, conservando em seu território a população jovem. Criou, então, com sua equipe, um programa de inclusão social através da música e do esporte. São Pedro hoje tem uma pequena orquestra, formada por meninos e meninas da comunidade, orientada pela Camerata de Florianópolis e financiada pela Dígitro, empresa mané de altíssima tecnologia.

Está dando certo. Como também está coberta de êxito a iniciativa de oferecer o ensino do idioma alemão nas escolas da rede pública. Começou com as crianças. Agora, também os pais participam das aulas, interessados em se aprofundar na língua de seus antepassados.

Não é uma luta fácil, ainda mais em tempos de vacas magras. Mas tem sido positiva e deve render mais frutos nos próximos anos.

Caso 2 – Palhoça – Fui conhecer o trabalho realizado pela prefeitura no CIEP. Fiquei emocionado em ver crianças e adolescentes participando de atividades extra-classe durante o contraturno escolar. Quase todos torcem o nariz para o prefeito Ronério Heiderscheidt, mas ele tem se empenhado pessoalmente em garantir a continuidade desse programa. São crianças de origem pobre, que moram em casebres ou casas muito humildes, que estão se envolvendo com a cultura, a informática e o esporte. Conversei com uma professora que atua nesse complexo da prefeitura. Ela fez uma estimativa: “Se de cada dez nós evitarmos que oito ou sete se envolvam com a ‘rua’ nós já nos consideramos vitoriosos”. A ‘rua’, vocês sabem, é a criminalidade. Crianças e adolescentes ocupados com coisas positivas acabam evitando a ‘rua’ naturalmente.

Caso 3 – Balneário Camboriú – Edson Renato Dias (Piriquito) é o prefeito da cidade. Aliás, o primeiro prefeito nascido no município – todos os outros eram importados, inclusive do Rio Grande do Sul e do Paraná. É um homem de origem extremamente humilde – foi guardador de carros quando era menino, depois sacoleiro (vendedor de roupas), bancário e pequeno comerciante. Ingressou na política em 2000. Com uma visão diferente da política, a visão de quem sempre foi marginalizado pelos políticos. Elegeu-se vereador, depois tentou ser prefeito (2004) e não conseguiu. Em 2006 foi vitorioso na campanha para a Assembléia Legislativa e, em 2008, finalmente conseguiu derrotar o esquema de Leonel Pavan (PDSB) em sua cidade. Ao entrevistá-lo, conversando sobre os problemas do município, a primeira colocação que ele me fez foi esta: “Estamos cuidando das crianças e dos adolescentes da rede pública. Investimos no contraturno escolar, nas atividades ligadas à cultura e ao esporte”. Ele quase não falou de obras, de projetos grandiosos. Fez referência direta a um dos mais graves problemas da modernidade no Brasil: o destino das crianças e adolescentes diante da falta de perspectivas sociais.

Cito os três casos porque estou entre os que acreditam que essa geração que está na escola hoje pode se livrar de muitas tentações da ‘rua’. Se não todos os meninos e meninas, pelo menos a grande maioria. Eles vão sair dessas atividades de contraturno escolar sabendo tudo de informática, praticando esportes, pintando, escrevendo ou tocando instrumentos musicais. Se não é muito, é algo que pelo menos pode deixar de ser uma utopia e se transformar numa nova realidade, de cidadãs e cidadãos empenhados em construir um país melhor.

Em tempo – Um quarto caso é sobre uma pessoa de Santo Amaro da Imperatriz, que não tem nada a ver com política. Seu nome é José Domingos Vieira e é conhecido há 90 anos pelo apelido de Deda. Negro, nascido no Morro dos Pretos (onde viviam os filhos e netos de ex-escravos), fez de tudo na vida, de carvoeiro a marinheiro da Hoepcke, de balconista da mercearia do João Moritz a contínuo. Mas o que ele mais gosta de fazer, desde menino, é participar da banda de Santo Amaro. Toca baixo até hoje e é amado pelo povo. Sua neta se elegeu em 2008 para a Câmara de Vereadores do município. Primeira vereadora negra de Santo Amaro. Saí da casa dele, depois de uma hora de papo, com lágrimas nos olhos.

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2 responses to this post.

  1. Posted by Joanildo on 17/07/2009 at 17:35

    Damiao, procura no MP, o caso de milhoes de reais do desvio do dinheiro destinado a merenda escolar pelo prefeito de Palhoca.

    Responder

  2. Posted by carlos on 17/07/2009 at 23:40

    Desvio de merenda? Só porque a prefeitura terceirizou o fornecimento da merenda para uma empresa chamada SP Alimentação? Bobagem! Todas essas fraudes atribuídas à empresa são calúnia, aquele flagrante lá em Canoas-RS, com o representante oferecendo dinheiro para o prefeito, é só armação dessa oposição que não sabe assimiliar a derrota nas urnas e quer sempre achar algum podre do vencedor. E o MPE de São Paulo parece que não tem o que fazer, diz que a SP faz parte de um cartel, junto com a Risotolandia, Gilberto J Coan e outras, criadas unicamente para fraudar merenda. Quanta calúnia! Imagina se o “Reinério” ia aceitar propina? Nunquinha!

    Responder

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