Audácia

 

Recomendo aos leitores o lançamento do documentário Audácia, hoje, às 19h30, no Cinema do CIC. Dirigido por Chico Pereira, o filme retrata a história da Operação Barriga Verde, desencadeada pelas forças de repressão do regime militar e que resultou na prisão de 42 pessoas.

O fato ocorreu em 1975. Eu conhecia quase todos os presos, já que uma parte deles militava comigo na Juventude do MDB (o partido abrigou esquerdistas durante quase todo o regime militar). Alguns me eram muito próximos e queridos, como o Roberto Motta e o Alécio Verzola.

Num dia daquele ano, após as prisões, conseguimos realizar uma missa em homenagem a eles, na capela do Hospital Militar da Rua Major Costa. Foi uma missa quase silenciosa, porque nós estávamos no auge do período sangrento da ditadura (Vladimir Herzog fora morto no cárcere por aqueles dias, em São Paulo). Mas foi bom ver que estavam vivos.

Quando Mota saiu, organizamos uma recepção para ele na casa de um amigo comum, na Lagoa da Conceição. A idéia da esposa (então Maria Rita) e dos amigos era transmitir carinho e alegria para ele. Mota estava muito abalado, com graves sequelas físicas e psicológicas. A mais aparente era um tique de passar a mão constantemente pelo pescoço, como se fizesse uma massagem. A explicação: Mota fora submetido a sessões de enforcamento na cela, as mesmas a que Herzog tinha sido submetido nos porões do DOI-Codi.

São as minhas lembranças daqueles dias. Muito tempo depois (dez anos), Mota se elegeria deputado estadual. Não suportou a mediocridade da nossa política, deixou de concorrer à reeleição e acabou ingressando, por concurso, na Justiça do Trabalho, onde foi juiz durante alguns anos. Aposentado, foi morar num apartamento próximo ao meu. Éramos vizinhos de porta. Conversávamos quase todos os dias sobre vinhos, poesia e latim (ele era apaixonado pelos estudos sobre latim; cheguei a presenteá-lo com duas gramáticas que catei num sebo).

Um dia, abri a porta para ir trabalhar. A porta de Mota estava aberta e, no corredor, muitos familiares e amigos consternados. Nem precisaram me dizer nada. Ele apagara durante o sono. Saudade dele, um tremendo brasileiro, um catarinense de qualidade, que morreu cedo, ainda com sequelas das violências sofridas. Muitos amigos disseram inclusive que sua morte teve relação com as torturas de 1975-1976 (seriam consequências tardias, uma espécie de sofrimento acumulado).

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One response to this post.

  1. Posted by Felipe Lemo on 04/06/2009 at 12:18

    Caro, o cinema do Cic não está fechado?
    Abraço

    Responder

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