1964 em 2009

 

Essas coincidências da vida…

Ontem, numa roda de amigos, conversávamos sobre um dos episódios mais nebulosos do golpe militar de 1964 em Florianópolis: o incêndio da Livraria Anita Garibaldi, que ficava na Praça 15 de Novembro e cujo proprietário era o escritor Salim Miguel. Os reacionários daquele abril de 1964, empolgados com a violência direitista que se instalou no poder, invadiram a pequena livraria e tocaram fogo nos livros “subversivos” que eram vendidos por Salim.

E agora a coincidência: no DC de hoje a triste notícia sobre o recolhimento de exemplares da obra Aventuras Provisórias, do escritor catarinense Cristóvão Tezza, que haviam sido distribuídos às escolas do Estado pela Secretaria da Educação.

Bem, o livro foi escolhido para os alunos por uma comissão da secretaria, com o objetivo de colocá-los em contato com a moderna literatura brasileira. E Tezza é um dos melhores ficcionistas do país na atualidade.

Tempos depois da distribuição, alguém resolveu ler a obra do catarinense com mais atenção. E descobriram trechos eróticos, incompatíveis com a educação que jovens de 15 a 18 anos (!) devem receber. Por isso, mandaram recolher os livros.

Tomo emprestado um trecho da reportagem do DC:

A assistente técnica pedagógica do Colégio Estadual Governador Heriberto Hülse, em Criciúma, Maria Gorete da Silveira, considera que o livro tem uma boa história e um enredo interessante, que se passa na Ilha de Santa Catarina. Entretanto, classifica o vocabulário de “chulo” e relata que, em alguns parágrafos, “a relação sexual é abordada de maneira banal”.

– O vocabulário é exagerado e essas palavras queremos extingui-las da boca dos alunos, banir do ambiente escolar. O aluno não está preparado para receber este conteúdo – frisou.

É o que basta para que essa moça, assim como outros reacionários do nosso mundo escolar, sejam colocados no mesmo baú sinistro em que enfiamos os responsáveis pelo incêndio da livraria Anita Garibaldi, há 45 anos.

Porque, de fato, no mundo em que vivemos atualmente garotos de 15 a 18 anos não podem ter acesso a trechos eróticos da nossa melhor literatura. É mais fácil para eles, certamente, assistir a vídeos pornográficos na internet. Vídeos, aliás, disponíveis em milhões de sites especializados.

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6 responses to this post.

  1. Damião, esse me parece um caso de má influência da mídia sobre a realidade. No calor daqueles escândalos em São Paulo, que fazem mais sentido por se tratar da faixa-etária infantil, a Secretaria de Educação decidiu recolher um livro que não é inadequado para adolescentes e que tem o mesmo perfil de diversos livros cobrados pelo vestibular. Ou seja, contrassenso total.

    O pior é que um caso como esse desmascara o despreparo do ensino público com conteúdos um pouco mais sofisticados como a educação artística. A análise que a pegagoga Maria Gorete da Silveira faz é completamente antiquada, colocando a boa literatura como se fosse meramente uma boa história escrita com um belo vocabulário. Com isso ela joga no lixo boa parte do que há de melhor na literatura moderna, de Joyce a Cortázar.

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  2. Posted by Sergio Luiz da Silva on 29/05/2009 at 23:14

    Damião, cá com meus botões pensei: o que essa pessoa faria diante do David de Michelangelo? E aquelas obras de Toulouse-Lautrec? Paul Gauguin? Di Cavalcanti? Hummmmm.

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  3. Posted by lélia on 30/05/2009 at 5:31

    Damião, semanas atrás lendo a crônica do Amilcar Neves no blogue do Celso Martins em que tornava público um convite da Feira do Livro de Porto Alegre aos escritores catarinenses e que ficamos sabendo na abertura da Feira de Rua do Livro, a 24ª e não a 2ª Catarinense como querem alguns. Eu escrevi sobre o descaso da literatura e da própria Feira do Livro renomeada de II Feira Catarinense como se todos fôssemos desmemoriados e sem vergonha. Ali, eu lembrava exatamente deste fato triste- o nosso “Fahrenheit 5.0” que, ao contrário do que escrevi no Sambaqui, não podemos ESQUECER … Para completar o quadro do descaso com o livro e o autor catarinense leio no teu espaço a triste notícia sobre o “recolhimento de exemplares da obra Aventuras Provisórias, do escritor catarinense,o lageano Cristóvão Tezza, que haviam sido distribuídos às escolas do Estado pela Secretaria da Educação.”
    Morro e não vejo tudo!!! Não podemos ficar só se lamentando, é preciso denunciar e não deixar passar batido uma atitude tão reacionária como aquela do passado. Sim,não se pode esquecer! Não podemos permitir que tais absurdos se reproduzam,sob pena de sermos cúmplices ou omissos. Sob pena de acabarmos no mesmo baú sinistro onde jaz a memória de alguns. Enfim, é tempo de Divino,que os Seus dons nos ilumine e nos fortaleça para acreditar sempre que ainda resta esperança.

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  4. Posted by Cesar Laus on 30/05/2009 at 11:28

    Pelo visto os alunos (de 15 a 18) da tal profesora não assistem televisão. Ou aquilo não é erotismo??

    Êta povinho que anda mandando em nosso estado!!!!

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  5. Posted by Schneider on 30/05/2009 at 15:28

    E a Marlene Rica continua assunto proibido inclusive para maiores…

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  6. […] conta de um ataque de Torquemada que acometeu alguns educadores (sic) catarinenses. (Mais detalhes neste […]

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